26 de mar de 2012

'O BlackBerry de Hamlet': guia filosófico para o mundo digital

 
Autor inspira-se em Sócrates, Shakespeare e Sêneca para mostrar que a qualidade de vida no século 21 pode ficar comprometida caso a sociedade não aprenda a se desconetcar das “telas”

O filósofo Henry David Thoreau, no século XIX, defendia que todo mundo deveria ter uma zona de simplicidade e paz interior. Um lugar para onde se pudesse ir toda vez que as coisas parecessem estar “sobrecarregadas”. A teoria, eternizada em 'Walden', um de seus livros mais famosos, fez sucesso na época e pode ser a alternativa equilibrada para tornar a vida moderna mais leve.

Entusiasta desse pensamento, o ex-redator do jornal Washington Post, William Powers, recorreu não só a Thoreau, mas também a Platão, Sêneca, Gutemberg, William Shakespeare, Benjamin Franklin e Marshall McLuhan para provar que tecnologia e filosofia têm muito em comum. O resultado dessa mistura no mínimo inusitada virou livro, 'O BlackBerry de Hamlet' (Hamlet’s BlackBerry), que foi parar na lista de mais vendidos do New York Times e chega às livrarias brasileiras pela Editora Alaúde.

Na obra, o autor propõe uma reflexão sobre como a  sociedade tem interagido com os meios de comunicação e até que ponto é positivo viver conectado à rede ininterruptamente. Aponta que as relações interpessoais têm perdido a profundidade e que a culpa por vivermos cada vez mais enlouquecidos, correndo contra o tempo, está no excesso de informação que brota das telas – computadores, notebooks, tablets, celulares – que nos cercam.

Dentro deste contexto, o passado pode parecer não ser o lugar mais convencional para buscar orientação sobre a nova conectividade, certo? Não necessariamente, pois foi bebendo de fontes como Platão e Sêneca, por exemplo, que Powers conseguiu traçar um caminho razoável, que faz todo o sentido: a desconectopia, que nada mais é que a promoção de intervalos entre o usuário e as telas, uma espécie de refúgio ideal, como imaginou Thoreau. “Estamos sempre on-line. Em qualquer lugar. Isso pode ser uma bênção, mas também uma maldição”, sentencia o autor.

Velocidade x profundidade

Embora muito do que nos mantém agitados seja inevitável – as demandas do trabalho e outras obrigações inflexíveis –, uma boa parte, segundo ele, é “puro alvoroço sem fundamento”. No livro, o autor conclui, por exemplo, com base num comportamento adotado por Sêneca, que se concentrar naquilo que realmente é importante ajuda a evitar o desperdício de tempo. “Cada um deveria segurar as rédeas da própria biga interior, decidindo quando e como fazer uso de suas energias”, pondera.

Para Powers, os custo dessa vida louca são altos e anulam todos os benefícios da vida tecnológica.  “Deixando que as telas dirijam nossa vida, desprezamos os outros aspectos da nossa existência e renunciamos à nossa própria integridade. Estamos vivendo menos e dando menos de nós, e por isso o mundo fica pior”, diz.

Depois de usar a própria vida como laboratório e objeto de estudo em busca de uma solução para o que chama de enigma da conectividade, o autor criou um relato leve e divertido sobre autonomia e autossuficiência. Alegre, original e instigante, O BlackBerry de Hamlet nos desafia a repensar nosso dia a dia e a retomar o controle da nossa vida.

A crítica
“Benjamin Franklin teria amado este livro. Ele entendia a importância de estar conectado, mas também a do equilíbrio e dos momentos de reflexão. William Powers nos traz um guia prático do caminho de Sócrates para a vida tranquila, na qual o eu interior e o exterior estão unidos.” (Walter Isaacson, autor de Benjamin Franklin: an American Life e de Steve Jobs)

"Eu passo muito tempo no computador e não o suficiente tocando guitarra" [...] "Há um problema inegável nesta vida nas telas, que toma conta de toda a sua vida real. [...] Você pode gastar um bocado de tempo nisso, quando deveria estar fazendo outra coisa.” (Mick Jagger)


Ficha técnica
'O BlackBerry de Hamlet – Filosofia prática para viver bem na era digital'
Autor: William Powers
Editora Alaúde, 228 páginas, R$ 34,90


Divulgação

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